Capa » Notícia » O carteiro e o poeta

O carteiro e o poeta

Araripe CoutinhoPor razões políticas o poeta Pablo Neruda se exila em uma ilha na Itália. Lá um desempregado quase analfabeto é contratado como carteiro extra, encarregado de cuidar da correspondência do poeta, e gradativamente entre os dois se forma uma sólida amizade. O fato que merece registro é como um carteiro, nascido em Santa Rosa de Lima conseguiu ser governador de Estado. Um homem vindo do interior, pacato, foi prefeito, deputado e galgou o título máximo de sua carreira. É tão fantástica esta história, que merece, sem dúvida, uma análise mais afeiçoada.

Em Santa Rosa de Lima quem lá habita chama-se santarosence. Filho de Etelvino Alves de Lima e Neuzice Barreto de Lima Jackson Barreto é advogado com Bacharelado em Direito pela Universidade Federal de Sergipe, é funcionário público lotado na Receita Federal, tendo antes trabalhado na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Sua carreira política começou em 1970 como presidente da juventude do MDB em Aracaju, cidade onde foi eleito vereador em 1972, tendo antes militado no clandestino PCB.

Vitorioso nas campanhas para deputado estadual em 1974 e deputado federal em 1978, ingressou no PMDB e foi reeleito para a Câmara dos Deputados em 1982. Sua última eleição pelo PMDB aconteceu em 1985 quando venceu a disputa pela prefeitura de Aracaju. Em 1988 ingressou no PSB. Sua passagem pelo executivo foi abreviada por sua cassação em maio de1988 pela Assembléia do estado de Sergipe, tendo como voto de minerva pela sua saída do cargo sido dado pelo  ex-governador de Sergipe, Marcelo Déda. Lembro-me ainda, nós na rua, monitorados por Lânia Duarte, então secretária da Cultura,  com camisas chorando por Jackson. Foi um momento lindo. A cidade toda comovida.

Era aquele cara que ia, anos depois, de perder sua mãe, seus 3 irmãos e sofrer alguns golpes como a partida do fiel escudeiro Marcelo Déda ser eleito governador por voto direto. Impressionante como aguentou tantos embates. Claro ele é o governador eleito. Tem poder de devolver a dignidade do povo sergipano. E mais do que ninguém deve isso ao seu povo. Tem falado quase sempre as mesmas coisas “vou cuidar da saúde, da educação, da segurança.” Jackson tem que mudar o disco. Existe a agricultura riquíssima do “interland” sergipano, o Sergipe Parque Tec, a contratação de executivos capazes de combater a sonegação fiscal, e a mudança de paradigmas na equipe, que sempre revezam os mesmos nomes, sua maioria preguiçosos (querem chegar as 10 horas na secretaria)  sem paixão pela coisa pública. Seu Jackson vai ter que lidar com uma sucuri poderosíssima, cheia de vícios, atrelada ao governo desde a Arena, e, que acha que o governador tem condição de resolver tudo.

Claro, terá a oportunidade, em 4 anos de licitar as obras com clareza, com publicação no portal, que deve ser inaugurado em praça pública com atualização diária. Há uma fome da população com a lisura, a transparência. O menino carteiro, de olhos esbodegados, e voz rouca, terá a oportunidade rara de transformar Sergipe num exemplo para o mundo. Como Lula que saiu de Caetés e se tornou presidente. Existe hoje empresas especializadas para serem contratadas, com profissionais phds, que podem projetar o Estado em razão de excelência para o governador. Nada de ficar fazendo nada “nas coxas”, improvisando. O Banese pode ser um importante instrumento para a erradicação da pobreza, a valorização da cultura e a promoção do Estado lá fora. Eliane Aquino pode monitorar a área social, como tem feito com maestro. Exemplo de erradicação da pobreza e da fome, como o restaurante padre Pedro.

Serão 4 anos que Jackson terá para se emocionar com sua equipe. Precisará de energia suprema e como disse ele “Deus nunca me abandonou.” Tem quer ser enérgico sem ser pedante e humano sem ser perdulário. O fato, volto a dizer, de um carteiro se tornar governador é divino! Algo tão etéreo que nada tem a ver com partido, concorrentes. É algo único no país. Uma história que comove, por si só. É literatura. A história de Dom Quixote de la Mancha. Jackson Barreto vai ter que lutar contra os moinhos de vento e assim como o cavaleiro do romance, o seu sentimento deve ser nobre e puro. Jackson tem uma vantagem: nunca foi rico, nem soberbo. Tem bom gosto para muranos, vinhos, obras de arte. Claro: precisa de um “personal stylist” que aposente suas camisas “cofando” e compre outras de griffe e um sapato de couro legítimo e ternos mais bem cortados feitos por um alfaiate, ou se achar cansativo, um Ricardo Almeida lhe cairia bem. Afinal o governador é um espelho, o único que assentava com ternos amarrotados era Antonio Ermírio de Moraes.

Não se sabe, ao certo, como Jackson vai monitorar a sua equipe. Erra ao dizer que vai começar em 2015, tem começar agora. Ele é um dínamo – dizia Sales Neto. Eu fiquei muito impressionado, durante a campanha, com sua disposição. Não dava um espirro. De manhã eu ligava, ele já estava nos municípios. Um dia ele me ligou de manhã e perguntou: “você tem dúvida que eu serei o governador”? Como se ele já tivesse a certeza do destino, traçado pelo tempo. Era um visionário de si mesmo. Ensimesmado com qualquer coisa que descambasse na dúvida. Ele queria a certeza e teve a confirmação.

Claro, o poder é cheio de entraves, firulas. Não se governa sozinho, não se banha duas vezes no mesmo rio – diria o mestre. Vai ser preciso luneta, para enxergar além do que se vê. E Jackson é mestre nisso. Caberá equilíbrio, quase um mantra, terá que desenvolver a paciência, a resignação com aquilo que não poderá mudar. O menino Jackson de Santa Rosa de Lima terá que atravessar a selva escura de Dante em “A Divina Comédia”. “Nel mezzo del cammin di nostra vita / Mi ritrovai per una selva oscura / Che la diritta via era smarrita”  “No meio do caminho de nossa vida / Encontrei-me numa selva obscura / Que a estrada reta fora perdida.”

O pleito para a eleição não me interessa, o que me deixa circuspecto é o valor histórico do acontecido. Algo tão fantástico: um carteiro chegar ao cargo máximo de um Estado: o de governador. Merece, Jackson,  ter escrito uma biografia contagiante. Repetindo com Francis Bacon “a verdade é senhora do tempo, não da autoridade.”

Araripe Coutinho é poeta

Postado originalmente no www.infonet.com.br

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Required fields are marked *

*


*