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50 anos do Golpe Militar no Brasil

Em 1964, brasileiros lutavam por um prato de comida x Em 2014, um dos maiores problemas no país é a obesidade infantil.

Laís de Melo

 

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Golpe. Censura. Repressão. Consequências físicas. Policiais armados. Jovens nas ruas Caminhando e Cantando e Seguindo a Canção. É por esse norte que as pessoas se recordam da Ditadura Militar de 1964, que nesta segunda-feira (31) completa 50 anos de história.

Passadas cinco décadas desde o momento em que muitos foram presos, pessoas desapareceram, foram mortas e políticos de esquerda ficaram na mira de serem exterminados, retorna ao cenário brasileiro imagens de policiais reprimindo os revoltosos que decidiram ir às ruas cobrar melhorias no transporte público, saúde e educação, além de exigirem uma reforma política. Porém, as diferenças entre os jovens de 64 para os jovens de hoje, os seus pensamentos e situação econômica em que se encontram, dão uma nova conjuntura a essência desses grupos revolucionários.

samaroneDos filhos deste solo és mãe gentil?

Para tentar entender um pouco mais sobre o que ocorreu no Brasil naquela época, e seus desdobramentos nos nossos dias, fomos conversar com o atual professor de Saúde Pública na Universidade Federal de Sergipe (UFS), Antônio Samarone, que na data de hoje (31/03), estará reunido num significante jantar com sergipanos que foram presos, torturados e perseguidos pelo regime militar soba acusação de serem um perigo para a nação.

Wellington Mangueira, Manoel Hora, Milton Coelho, Jackson Barreto, João Augusto Gama e Rosalvo Alexandre, são algumas das vítimas dos militares que irão narrar, durante o encontro, os momentos que marcaram suas vidas com prisões injustas e processos que os acusavam por participarem de uma maléfica trama para instalar o comunismo no país. Uma restrição que tirou a paz de muitos políticos envolvidos com o agrupamento de esquerda e que deixou profundas sequelas na memória nacional.

Tudo é uma grande lição

Abaixo a ditaduraDurante a conversa com Samarone pude voltar ao tempo histórico onde muitos acreditaram em uma mudança de ordem no Brasil, e ficou claro para mim que a necessidade de renovação era diferente do que querem hoje os jovens pedindo por Reforma Política Já.

As diferenças são em grandes escalas: Em 64 os brasileiros passavam fome e lutavam por essa condição, diferente do que acontece hoje em dia, onde um dos maiores problemas é a obesidade. Esses mesmos jovens não tinham acesso às informações como se encontra disponível atualmente. Em 64 a maior parte dos brasileiros eram excluídos da sociedade. A desigualdade social dominava.

Recentemente, em 2013, o discurso de que O Gigante Acordou tomou conta do Brasil. As ruas se encheram de pessoas gritando e lutando por um ideal que até agora não sabemos qual, mas que nos fizeram ter a certeza de que a população está cada vez mais revoltada.

Juntando as épocas, podemos ver claramente que os jovens de hoje se manifestam parecendo ter por intuito maior o consumo, ainda que seja de serviços públicos de qualidade, enquanto os de 64 pensavam no rumo do país e sonhavam que podiam mudar o mundo. Como diz Samarone, eles não aceitavam ser apenas um consumidor passivo do que o capitalismo oferecia.

O perigo mora na ignorância

12-02-06_vladimir-safatle_a-sombra-da-ditaduraCom os olhos voltados ao atual, mas o sentimento ainda em 64, Samarone se preocupa com a manifestação da sociedade de querer retomar a Ditadura. “Nós escutamos muitas pessoas que estão indignadas com os políticos dizendo vamos voltar a ditadura. Só que quem está dizendo isso não sabe o que significa. Mas, de qualquer forma, com a desilusão de que os políticos são todos iguais e de que eles não prestam, o canto nacional de ditadura vai crescendo. Qualquer coisa hoje as pessoas tocam fogo em ônibus, fecham a ruas. Daí nós lembramos do Nazismo na Alemanha, que foi antecedido de movimentos, de quebra-quebra, de tocar fogo nisso, tocar fogo naquilo, e então sentimos a necessidade de fazer um alerta”, observou Samarone.

Até este momento no Brasil, não existe claramente a ameaça de uma Ditadura, mas esses homens sentiram a necessidade de se reunirem e mostrar à sociedade que a saída do Golpe é um processo duro – como aconteceu em 64 – e evitar que algo parecido aconteça é a opção mais inteligente. 

Ideologia, quero uma para viver? Ou consumo, logo existo?

O professor aproveitou a discussão e lembrou a época em que ele e os seus amigos universitários participavam do Movimento Estudantil – em 1974 – quando ainda tinham uma ideologia política (Comunismo, Socialismo e Liberalismo) ao qual se espelhavam e a partir dela trilhavam caminhos. Aliás, para Samarone, as ideologias da época tinham um grande peso na sociedade e hoje em dia elas não existem mais. Portanto, a Ditadura que matou, torturou e reprimiu o sonho de muitos jovens e adultos há 50 anos, não pode retornar ao Brasil se os jovens tiverem o conhecimento do que é a sociedade em que vivem. “Os seres humanos em 64 tinham suas fragilidades e agiam conforme um entendimento daquela época”, disse.

 

Segundo ele, para entrar na política com a ideia de querer mudar o mundo, como a geração dele queria, é preciso enfrentar as dificuldades da realidade. “Ninguém está preocupado com o que você pensa. Hoje a política é feita na lógica de mercado. Você faz uma pesquisa de opinião para saber o que as pessoas querem ouvir e faz um programa de governo baseado nessa pesquisa. É tudo muito artificial”. Sendo assim, os problemas que os jovens de antes tentaram enfrentar, na opinião de Samarone, não foram resolvidos, e estão longe de encontrarem uma solução.

Quem somos nós, afinal?

“Nós continuamos sendo um país completamente desigual. Tem que resolver isso. A sociedade deixa de fora parcelas grandes de pessoas. Mesmo quem entra na disputa, entra em condições completamente desiguais. É por isso que temos as cotas hoje”, lembrou.

 

Se não estamos caminhando para resolver a problemática, estamos longe das ideologias que poderiam nortear muita coisa; se estamos sendo enganados com programas que dão uma sustentação não sustentável, como então devemos seguir? Qual o caminho certo? Como alcançar o momento de poder disputar com países de primeiro mundo quando a Educação ainda é nefasta no Brasil? Eu não sei. Samarone também não.

Simplesmente basear-se nos brasileiros de 64 não é o caminho, visto que se passaram 50 anos e as exigências são diferentes. No entanto, uma boa luz é sempre relembramos a luta deles e comemorarmos, todos os dias, o retorno da liberdade que fora perdido por um tempo.

A liberdade de expressão, a integração da mulher na sociedade e sua participação ativa, a liberdade sexual, o direito de ir e vir. O livre-arbítrio.  A não censura. Liberdade.  Sim, apesar de tudo, os jovens revolucionários de 64 podem se considerar vitoriosos. Muito obrigado, Samarone e todos os outros nossos heróis.

 

“E eu digo não.

Eu digo não ao não.

Eu digo: É proibido proibir!” – Caetano Veloso 

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